Monday, October 11, 2010

O bailarino na praia


Em um grande festival em algum lugar do mundo, uma festa na praia, se assim quisermos, centenas de pessoas dançam com jovialidade. Todos estão mexendo seus corpos, todos se divertem e compartilham um momento de alegria. Eu mesmo não danço muito bem, e jamais pretenderia que minha maneira de acompanhar uma música movendo o corpo fosse entendida como algo à parte do contexto. Se eu danço, posso entender como arte a música que ouço, quando esta é boa, mas não o meu modesto rebolado. Eis que vejo um dos dançarinos, no entanto, se movimentando com tamanha inteligência e sensibilidade que faz do próprio corpo um deslocamento maior, tornando-o um veículo de informações que tangem o universal. Os gestos que ele faz ganha tanta plasticidade que sabemos que ali há estudo e repertório de dança, seja amador ou profissional, somado a um talento natural. Ele não precisa cobrar ingresso ou de um holofote que o evidencie, mas eis que no meio da pista há algo de verdadeiramente artístico, que de certa forma destoa o bailarino dos demais festeiros. Talvez fique mais claro se eu disser que as outras pessoas da festa estão sempre trocando algumas palavras entre si ou convidando para um cigarro; já para esse bailarino podem até lançar palavras de incentivo, mas não ousarão interrompê-lo antes que a música acabe, para não quebrar o efeito. Todos que não forem invejosos deixam-se contagiar. O espaço é o mesmo, todos partilham a mesma pista, a mesma areia; no entanto há um jogo complexo de signos, em que os movimentos corporais do bailarino se colocam como alteridade, enquanto os demais se movem com ludicidade mas sem a mesma transfiguração. Apesar de impressionados com o artista, ninguém precisa sequer considerar essa performance o ponto alto da noite. Um pouco mais tarde, a cem ou duzentos metros da pequena multidão, um primeiro beijo surge para um casal, e talvez com isso um novo amor irrompa. Um primeiro dia acontece todos os dias, e traz consigo suas intensidades. Anos depois, a lembrança daquela noite talvez combine o vívido instante do beijo com a magia do espetáculo da arte bailarina. A memória, sendo sempre uma reconstrução, poderá fazer com que um afeto se amalgame ao outro, pois não é raro que vida e não-vida se complementem.  

Espero que compreendam meus esforços ao longo destes ensaios como a maneira de se obter a melhor disposição para todas as danças – tanto a do bailarino por vocação quanto a de festeiros que querem apenas sacudir os ossos. Não há ganho algum em se rotular todos os gestos lúdicos como arte. O bailarino mais talentoso pode ter uma ambição, nada condenável, de entrar em um transe maior com a arte da música, e se possível levar os que o observam a compartilhar desse transe. Os demais podem observá-lo com a mesma atenção e prazer que se observa um artista, se assim o quiserem. Aqueles que terão melhor aproveitado a festa serão os que não tiverem visto a arte como algo acima da vida, mas como um complemento.

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